Pai nosso que estais nos céus

Meu pai sempre foi muito religioso. Desde que minha lembrança alcança, não lembro de ele ter passado mais de uma ou duas semanas sem ir à missa. Comigo a educação sempre passou pelo crivo da religião. Ele lia a bíblia comigo quando era criança, um livro bonito que tenho até hoje, meio que ilustrado, grandão, e que vez por outra ficava aberto em algum local da casa.

Mais tarde fiz primeira comunhão, crisma, fui coroinha de uma igreja. Fui “incentivado” a isso desde sempre. Numa época menos remota frequentei uma igreja evangélica e imagino que isso tenha chateado muito ele. Se a católica não me acolhia talvez uma denominação protestante satisfaria minha necessidade pelo desconhecido, pensava. Estava em um culto quando ele infartou pela primeira em 2004, esperançando que um fato nunca estivesse ligado ao outro.

Onze anos mais tarde estou na frente do Hospital Florianópolis esperando para a primeira visita com boletim médico da UTI da referida casa de saúde pensando em como seria vê-lo em coma. O que diria pra ele? Muitos especialistas são crentes em afirmar que o paciente desacordado “ouve” o que dizemos no seu leito. Mas, ainda que ouvisse qualquer coisa, nada poderia dizer.

Então comecei a pesquisar no Google como se rezava um Pai Nosso. Por certo é uma oração conhecida e quase unânime, mas não queria fazer feio na frente do meu pai. Queria deixá-lo feliz com minha presença e orgulhoso da minha fé.

A visita atrasou, tive bastante tempo de decorar novamente a oração que meu pai me ensinou. E, quando segurei em sua mão, só consegui rezar a oração universal do choro. Aquele choro prendido, agoniado, que não extravasa em sons. Se podia ouvir, não poderia ver. E quando consegui abrir novamente a boca sem parecer desesperado eu comecei…

“Pai, eu sei que o sr. não pode falar, mas sei que pode me ouvir. Vamos rezar um Pai Nosso?”

E foram as conversas mais sinceras que eu tive com ele nos 14 dias em que ele esteve desacordado naquele hospital, que começavam e terminavam com um Pai Nosso.

Se fez alguma diferença em algum plano espiritual eu não sei. Mas preciso viver com a certeza de que fez alguma diferença na vida dele enquanto ele respirava mesmo que por aparelhos.

Eu ainda rezo uma vez por outra um Pai Nosso, principalmente nas noites em que a falta dele fica mais angustiante.

Afinal, seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu.