Recentemente o jornal Estadão fez uma campanha publicitária onde coloca em cheque a credibilidade dos blogs como geradores de conteúdo e informação correta, comparando seus editores à macacos que nada mais fazem do que copiar e colar informações colhidas no mundo digital. A blogosfera que se auto intitula como geradora de conteúdo relevante ficou em polvorosa e rebateu as críticas.

Para entender mais do que se trata, veja a propaganda do Estadão criada pela agência Talent no YouTube:

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Em nenhum momento vi alguém do outro lado - o da mídia tradicional - se manifestar. Entrei em contato, então, com Filipe Serrano, jornalista do Caderno Link do Estadão e o mesmo aceitou conversar comigo sobre o assunto. Achei interessante colher a opinião dele uma vez que o caderno em que ele escreve fala também acerca de blogs, blogueiros e assuntos correlatos.

Em tempo, reproduzo aqui palavras do próprio Filipe, que se dispôs a fazer a entrevista como PROFISSIONAL e não como funcionário do Estadão:

Primeiro gostaria de deixar claro que NÃO falo em nome do Estadão ou mesmo do caderno Link. Trabalho para a empresa, mas respondo de acordo com a MINHA visão de um jornalista da área - há 1 ano e meio - de tecnologia. Por favor, deixe isso claro.

Dadas as devidas circunstâncias, vamos à entrevista.

Blog do Becher - Recentemente a Agência Talent fez uma campanha para o Estadao.com.br e, na propaganda, eles comparam os blogueiros brasileiros à macacos que nada mais fazem do que copiar e colar desmerecendo a qualidade dos mesmos. Você, como jornalista do caderno Link do Estadão.com.br, concorda com a propaganda, ou seja, você acha que a blogosfera brasileira é, via de regra, composta por macacos replicadores de material de baixa qualidade?

Filipe Serrano - Não acredito que a blogosfera se resuma a replicação de informações de baixa qualidade. A comparação feita pela campanha publicitária foi infeliz e atingiu blogueiros que devem ser inclusive consumidores de notícias tanto do jornal quanto da versão online do Estadão. Mas não acho que a empresa esteja fazendo campanha contra os blogs, como se disse por aí. Uma propaganda não deve ser encarada com essa seriedade, ou você acredita em tudo que um anúncio diz? O jornal não fez nenhum editorial contra blogs para que as pessoas comecem a acreditar nessa idéia. Imagino que o objetivo dessas peças publicitárias era dizer que há muita informação não-confiável na internet e que no site do Estadão é possível encontrar material de qualidade. Isso não deixa de ser verdade, mas citar blogs de maneira generalizada para exemplificar a falta de qualidade das informações da internet não é uma atitude de alguém que entenda do fenômeno “jornalismo cidadão” da web.

BB - O Estadao foi um dos primeiros meios de mídia tradicional, como dizemos, a entrar na Internet ficando online no início da década de 90, antes mesmo do surgimento de outros grandes portais conhecidos. Você acha que essa campanha surgiu de alguma espécie de “medo” que o portal tem de concorrência na audiência? Há uma concorrência entre portais e blogs?

FS - Para as duas perguntas, a resposta é: de jeito nenhum! Primeiro, como já falei, não é uma campanha do jornal contra blogs, mas, sim, um anúncio.

Segundo, todos os veículos de comunicação, sem exceção, têm medo de perderem a audiência para a internet. Emissoras de TV sabem que as pessoas com acesso à web já passam mais tempo no PC do que assistindo TV. As rádios temem a concorrência dos portais de notícias. E os jornais, por sua vez, se assustam ao ver que as notícias podem ser lidas em sites informativos pouco tempo depois de acontecerem. Enquanto que o jornal perde sua validade em termos de informação diária porque quando chega à casa das pessoas, elas já viram na web o que aconteceu no dia anterior. Esse é o verdadeiro medo.

E por isso há uma necessidade de se reinventar a linguagem dos jornais impressos, ao mesmo tempo em que as empresas investem cada vez mais em informação online para não perderem seus leitores. Se a bomba explodir, é melhor ter um abrigo bem protegido, não é? A verdade é que os portais de notícias dos mesmo grupos de mídia tradicional são os sites mais procurados pelos internautas quando querem se informar. Tudo por causa da credibilidade criada por eles em décadas de existência.

Nos EUA, se fala em uma concorrência maior com blogs porque lá eles conseguem apurar algumas notícias assim como os veículos de comunicação, ainda que não com a mesma variedade. No Brasil, até onde eu tenho acompanhado, os blogs ainda não ganharam essa força, seja por falta de iniciativa dos blogueiros ou pela credibilidade deles perante a sociedade enquanto fontes de informação confiável.

Recentemente estive em um evento que se discutiu se havia concorrência dos blogs ou não. Os estudiosos presentes acreditavam que não - opinião que eu também compartilho. Os blogs tem uma função e a mídia (jornais, revistas, portais, TVs, rádios) tem outra. Eu mesmo passo mais tempo navegando em blogs do que lendo jornal, mas sei que só vou conseguir acompanhar as notícias completas por meio do papel cheio de tinta. Ou você já viu algum blogueiro (que não seja jornalista) investigando as denúncias de corrupção contra a Infraero? Ou mesmo entrevistando ministros? Poderia acontecer, claro, mas atualmente não existe.

BB - O Estadão não gosta de blogs. Não fosse assim, eles não teriam generalizado na campanha publicitária imputando aos blogueiros a figura do macaco que automaticamente - e sem discernimento - copia e cola conteúdo. Mas o Estadão também hospeda blogs ( http://render.estadao.com.br/blogs/). Seriam eles também macacos? Por quê a controvérsia?

FS - Quem disse que o Estadão não gosta de blogs? Sei que parece que esteja defendendo o jornal, mas não conheço qualquer campanha publicitária que reflita opiniões dos anunciantes. Os blogs são um fenômeno porque são escritos de forma mais pessoal e sem um controle editorial rígido. Esse é o grande poder deles. E também têm sido mais usados como espaços para compartilhar interesses e opiniões. Os veículos de comunicação têm investido em blogs porque sabem que dessa forma conseguem se aproximar mais do público, mas ainda assim, são poucos blogs de qualquer veículo que dão notícias em primeira mão.

Conheço muitos blogs, de jornalistas ou não, que basicamente copiam e colam informações que viram em outros sites. Mas isso não faz perder a relevância. Se os leitores do blog visitam-no porque gostam dessas informações e sabem que o blog faz um filtro de material do seu interesse, não tem problema ficar replicando informação. Tudo depende da proposta do blog. Também existem muitos que copiam e colam, mas agregam alguma opinião, comparam com outros acontecimentos antigos, acrescentam um vídeo sobre o tema e etc.. isso vai deixando o blog mais rico e, particularmente, são esses que mais gosto e dou valor.

BB - O caderno de tecnologia do Estadão, Link, apóia esta campanha?

FS - Não sei. Não falo em nome do Link.

BB - Você, como jornalista, encara de que forma o blog como forma de criação de conteúdo relevante?

FS - Acho que o mais legal dos blogs é justamente o filtro que fazem e as suas opiniões. Por exemplo, se eu gosto de rock e acompanho diariamente um blog que fala sobre bandas do tipo, é porque sei o blogueiro tem um gosto parecido com o meu e vai me trazer dicas de artistas diferentes. Se eu li no jornal que tal banda lançou um novo álbum, vou ao blog para saber a avaliação dele do disco. Então escuto as músicas e crio a minha opinião, que pode ser diferente ou não. Como já falei, o maior poder dos blogs é falarem com um público mais segmentado e de uma forma mais pessoal.

BB - Você tem um blog? Se não tem, teria?

FS - Sim, faz um mês que virei blogueiro, mas não com o propósito de informar sobre algum tema específico. Meu blog é mais pessoal, é para compartilhar coisas que encontro e fazer algumas reflexões.. Não é para noticiar nem nada, mas só um canal livre que me dá prazer.

BB - Qual resposta você daria, se fosse blogueiro, em face desse cenário?

FS - É difícil dizer porque tenho a visão lá de dentro.

BB - E o que você diria à parcela da blogosfera que, hoje, está triste com o Estadão pela infeliz campanha de marketing realizada?

FS - Diria para não acreditarem em publicidade e para não deixarem de ler o jornal. Tem muito jornalista bom lá dentro ligado na importância da blogosfera e que não compartilha dessa falta de tato do anúncio.

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