Desculpas esfarradas: muletas do caráter
Ruy Barbosa, não o Benedito autor de novelas da Globo, mas o baiano jurista, ex-senador brasileiro do fim do século 19 e início do 20, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador, dizia que “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Nós, enquanto brasileiros, mais das vezes nos pegamos pensando acerca da desonestidade quando vemos na mídia desvios de montantes de dinheiro que jamais imaginamos ter na conta bancária ou com troca de favores políticos que envolvem negócios onde nunca nos vemos, nem a longo prazo, envolvidos.
Entretanto, mal sabemos nós que fazemos escola de corrupção quando furamos um sinal vermelho, furamos uma fila, conseguimos com aquele cunhado-amigo-de-vereador uma “ajudinha” em qualquer situação em benefício individual, fazemos todo o esforço para tirar até o último centavo alheio num negócio, quando podemos burlar alguma norma em favor próprio e coisas dessa natureza que não percebemos ou damos importância, afinal, o que são pequenos favores ou desvios ínfimos perto dos peixes grandes?
É aí que mora o perigo. Esse tipo de raciocínio é nada mais do que uma muleta para desvios do nosso caráter. Sempre criticamos o presidente ou imputamos aos deputados e senadores (diga-se de passagem, eleitos por nós) a responsabilidade pela corrupção enquanto nós, como povo, cometemos os mesmos delitos. Sim, os mesmos crimes. Somos corruptos, donestos e injustos em qualquer instância. A diferença é que o famoso “jeitinho” brasileiro usa uma muleta tão incutida na nossa índole que serve como desculpa fazendo um comparativo com os “grandes corruptos” e o total do montante, ou seja, achamos que o nosso, por ter valor monetário ou privilégio menor, se perdoa com as grandes quantias ou canetaços da turma do colarinho branco. Se formos analisar friamente, sem essa muleta, pagar cenzão por um cd player furtado ou roubado, é tão crime como pagar um mensalão. Se estamos propensos à comprar o MP3 player da hora pro nosso carro que foi “feito” na madrugada anterior, também estaremos suscetíveis à sermos compradores ou vendedores de favores políticos enquanto eleitos. É questão de oportunidade.
Estava vendo agora no Fantástico uma matéria que falava acerca desses “delitos” do cotidiano. Me isento de dizer o nome da matéria e da profissional que junto à jornalista analisavam as situações pois sempre pego as notícias do semanário em andamento. Numa das situações, um motorista chega a alterar a voz com um policial que o multou por usar o celular enquanto dirigia. Alegava, o taxista, que o PM estava agindo “arbitrariamente” uma vez que ele só atendeu o telefone para informar ao interlocutor que “não poderia atender”. Fez errado. Deveria estacionar em local permitido e, aí sim, atender ou retornar a ligação e resolver seja lá o que precisava. É claro que isso foi uma desculpa, uma muleta para livrar a cara dele do policial e das câmeras.
Poderia citar mais situações dessas mas nós, inclusive eu, após ler este texto podemos enumerar no mínimo 10 situações em que tentamos nos dar bem e no mínimo 20 em que criticamos quem quer que seja por atos ilícitos nos revoltando, ainda, por causa isso.
Têm uma frase que diz que “o melhor do Brasil, é o brasileiro”. Mas, como conseguimos ser um povo que gosta de ir aos dois extremos, afirmo que “o pior do Brasi, também é o brasileiro”. Enquanto usarmos dessas muletas para justificar o caráter, seremos sempre péssimos cidadãos e, em consequência (nunca o contrário), péssimos políticos resultando num país sempre pobre postado à margem das riquezas materiais e, sem dúvida alguma, da riqueza que, pelo menos, deveríamos nos orgulhar: nossos valores morais.
- Publicado por Daniel Becher na categoria: Críticas
- Se você gostou desse blog, assine o RSS e acompanhe as publicações via Feed!
3 comentários em “Desculpas esfarradas: muletas do caráter”
#1
¬ Evandro Nunes
abril 30th, 2007 as 2:54 am
Acho que temos os políticos que merecemos, afinal de contas, somos nós que os elegemos e os tormamos fortes e ricos, infelizmente é este o nosso quadro de hoje
[Responder]
#2
¬ Varda
abril 30th, 2007 as 11:34 pm
Acho que vc conseguiu escrever de forma mais literária aquilo que eu tentei resumir aqui:
http://marcelovarda.net/2007/04/lei-de-gerson-o-scambau.html
[Responder]
#3
¬ Guilherme Nascimento Valadares
maio 1st, 2007 as 11:31 am
Concordo totalmente, Becher. Aliás, a carapuça serviu direitinho aqui. O problema é que e como fazer? Como quebrar esse velhos hábitos? Tem que ter muito peito pra não fazer “o que todo mundo faz”.
[Responder]
Deixe um comentário